domingo, 23 de dezembro de 2007

Um prego, um pneu, uma estrada, um instante, um espelho


Nem deu pra sentir susto. O ato reflexo para segurar o volante foi maior.

Droga, pensei, o pneu! Logo agora, tão perto da chegada! Minha filha dormia no banco de trás, meu marido dirigia outro carro à frente, meu filho desbravava terras longínquas, e celular não pega na estrada.

Procurando uma alma gentil que trocasse o pneu, avistei, logo à frente, a bandeira de um posto de abastecimento. Sorte, pensei novamente. Fui bem devagar, pelo acostamento, pisca-alerta ligado. E enquanto o borracheiro fazia seu trabalho, dei uma volta pelo lugar.

Eu sempre gostei de olhar as montanhas, especialmente nesta época de chuvas. A água e o sol, misturados, criam inúmeros tons de verde e os pincelam nas montanhas mineiras. Quando criança ficava contando quantos verdes havia no mundo. E se dirigindo não pudesse desfrutar a meu bel-prazer os verdes da paisagem, agora seria um deleite. Acasos que acontecem, providencialmente.


Um barulhinho, no entanto, desviou meu olhar para perto. Bem diante de mim, um passarinho pulava no chão. A seguir, mais dois passarinhos saíram de uma árvore baixa e pulavam atrás do primeiro. Eram um pouco menores e pareciam nervosos. Ah! Uma pássara-mãe com dois filhotes. Ignorando solenemente a minha presença, a pássara-mãe e seus filhotes estavam aprendendo sobrevivência. A mãe dava um pulo e olhava para trás, chamando a atenção dos filhos. A seguir, bicava algo no chão e olhava novamente para eles. Os danadinhos abriam seus biquinhos enquanto ela lhes dava a comida. Depois de algumas vezes dando comidinha nas boquinhas, ou melhor, nos biquinhos, a pássara-mãe mudou sua atitude. Não mais dava a comida para os filhotes. Olhava para eles, bicava algo no chão, olhava novamente para eles com a comida no bico e engolia. Os pobrezinhos pulavam atrás da mãe tentando pegar a comida, mas ela negava e negava.

O barulho da minha filha se aproximando fez com que os três voassem de volta ao ninho. Depois de explicar o sucedido, ficamos as duas a assistir a aula. Agora a pássara-mãe voava para perto de outra árvore. Os filhotes não conseguiam manter o vôo ainda tão longo e caíam. Ela chegava perto dos filhos e novamente levantava vôo. Não contei as tentativas, foram muitas.

A voz do borracheiro assustou-nos e levou os três de volta ao ninho. Pneu consertado, entramos no carro para seguir viagem. Mas antes de engatar a primeira, não pude deixar de olhar novamente para a árvore da pássara-mãe e seus dois filhotes. Lá estavam os três no chão, provavelmente na terceira lição da matéria: "Como viver sem você(s)".

3 comentários:

Tania disse...

A foto é da BR-116, trevo de Leopoldina.

Tecelã disse...

Deus, que lindo, Tânia!!!

Obrigada.
Obrigada,
Obrigada.

Meu coração, mais que meus olhos, choraram. Esse é o choro que me faz bem chorar. Que pedaço de mim ficou pra trás nessa, também minha, terrinha?

Ricardo Artur disse...

Lindo e singelo.
Me identifiquei muito com a descrição da estrada. Realmente, ao viajar para Minas o prazer já começa na viagem em si. A paisagem das montanhas é linda.
Sobre os tons de verde uma curiosidade:
o verde corresponde à maior àrea perceptível no espectro da luz. Isso significa que é a cor que possui mais matizes do que as outras. Quantos verdes existem? Muito difícil dizer com certeza.