sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Nem sempre foi assim.


Houve um tempo em que ela corria soltamente pelas ruas de terra batida daquele bairro novo, simpático e simplório. Lembra do dia em que chegou no caminhão da mudança. Era tão pequena e magrinha que coube entre sua mãe, duas irmãs e o motorista do caminhão.

Entrava-se no bairro por uma estrada fartamente arborizada. Naquela época, não sabia, mas era flamboaiã. A Estrada, em ambos os lados, era um caminho de flamboaiã. As árvores que margeavam a estrada curvavam-se uma em direção à outra formando um corredor inteiramente coberto.

Gente, como era lindo! Ela olhava e olhava e olhava fartamente para aquele túnel arborizado. Que delícia! Acabada a estrada, estava-se no bairro. Ruazinhas iguais cheias de casinhas iguais. Todas do mesmo tamanho e da mesma cor, igual, igual, em tudo igual.

Ah, mas, para ela, parecia o paraíso. Uma casa de tijolo! um quintal limpinho! uma rua que parecia rua de tão certinha! um bairro que parecia bairro de tão uniforme! Que lugar lindo!
E água e luz elétrica! Era demais!!!

As casas, em sua parecença, não possuíam muros. Era como morar no bairro inteiro, em todo lugar, que era um lugar só. Fartou-se de olhar e olhar e olhar. E, quando todos estavam ocupados com a mudança, abriu os braços e rodou freneticamente como a tomar posse daquele espaço que parecia não acabar mais. Como adorava aquelas casinhas tão iguais!

Com o tempo vieram os muros e as cores e tamanhos diferentes de casas. Mas ainda era o seu lugar querido. Corria e corria por aquelas ruas de terra. Por ser a mais veloz, era escolhida para pegar a “bandeira” nos piques, o que lhe rendia, por vezes, não só a “bandeira”, mas também a “cabeça” do dedão do pé que lá ficava em uma pedra do caminho.. O sangue escorria e era preciso lavar e cortar a pele que ficara pendurada.

Um dia veio o asfalto. Que festa! Agora se podia correr e correr sem medo de perder a “cabeça” do dedão. Além disso, quando o sol se punha, era delicioso deitar no asfalto ainda morno. Sempre sentiu dificuldade para adormecer à noite, mas temia cair no sono ali deitada no chão, de tão relaxante que era. Ali adormeceria, certamente, se deixassem. Já adulta, casada, o carro de uns amigos enguiçou na Estrada Rio-Santos, no final da tarde, e lá foi ela deitar no asfalto. É claro que foi chamada de louca e a fizeram levantar imediatamente. Que saudade!

Havia uma senhora na rua que fizera uma promessa a um santo; então, em um determinado dia do ano, ela comprava velas em quantidade suficiente para iluminar toda a rua. A criançada podia ajudar. E lá íamos nós, a acender uma vela a cada metro do meio-fio, nos dois lados da rua. Que beleza ficava a obra pronta. A rua toda iluminada, nos dois lados, por velas. Naquela noite tínhamos permissão para ficar acordados até as velas todas se apagarem, e ainda “rolava” um bate-papo com os comentários de quantos haviam acendido quantas e de como era legal aquilo tudo.

Hoje não há nem sombra da atmosfera romanesca que envolvia aquele bairro. Hoje ele é chamado de favela, ou, com muita benevolência, de comunidade.
(Edna Farias)