sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Espírito Natalino

Nestes dias de renovação de esperanças, encontrei a minha em uma figura que cruzava a rua.
Que todos vocês possam descobrir motivos, diariamente, para continuarem as pessoas lindas que são.
Beijos,
Edna.

FOTOGRAFIA ANDANTE

Era um ser marrom. Grande, forte e todo marrom.

Seus cabelos, marrons, desciam em longos cachos marrons moldados pelo tempo, pela sujeira e pelo descaso a se confundirem com a pele do rosto igualmente marrom. Dessa forma, não se distinguia o que era face do que era cabelo, visto que seu rosto marrom era recoberto por incontáveis sulcos marrons.

Poderia até estar nu, uma vez que suas roupas eram, também, marrons como o cabelo, a pele e tudo o que compunha aquele ser.

Assemelhava-se a uma figura pintada por uma criança que só tivesse um lápis de cor: o marrom. Sempre que eu via essas pinturas infantis de única cor, ficava pensando que somente sendo criança para imaginar algo tão inusitado. Uma pessoa não podia ser tão uniforme, tão contínua, tão monocromática. Mas – pasmem! – lá estava o desenho que anda.

Sim, ele andava. Lentamente, num ritmo só seu, mas andava. Se o criatura-barro tivesse, como fundo, uma paisagem de terra, um paredão, ficaria invisível, perfeitamente camuflado. A terra e ele; ele e a terra; a terra que caminha.

Fazia pensar em retorno... volta ao lugar de origem... pó ao pó...

Isso seria tudo se o homem não estivesse segurando, no centro do corpo, um daqueles sacos rosa de pipocas. O vivo pedaço de cor fazia pensar em um coração deslocado a gritar que ali havia vida. E que vida! Pois, a partir do momento em que se via o rosa, somente essa cor importava.

O rosa explodia e ofuscava o marrom.

Edna Farias.

5 comentários:

Ricardo Artur disse...

Simplesmente adorável.
Quanta sensibilidade para fazer o mundo soar poesia.
Mais uma vez parabéns e obrigado pelos presentes que são seus textos.

Tecelã disse...

Ricardo,
Meus textos já receberam alguns elogios - nem tantos quantos eu gostaria, mas certamente mais do que mereço - porém os seus tocaram-me. Que é o que, afinal, conta.
Obrigada por ser adoravelmente simples.

Gabi disse...

Texto lindo. Poesia pura.

Tania disse...

Ai, Edna, nunca pare de escrever. E me envie tudo, sempre. Prometa.

Tecelã disse...

Prometo, Tânia querida.
Mas o seu texto sobre a vivência espiritual na estrada para Leopoldina é mais lindo do que qualquer coisa que eu já tenha produzido.
Obrigada. Digo apenas obrigada, pois sinto-me impotente para descrever a emoção causada pelo que você escreveu.
Grata, minha doce Tânia.