sábado, 9 de fevereiro de 2008

O olhar

Observando a paisagem que olho todos os dias há quase quatro anos, noto, em meio às montanhas recobertas pela mata verdejante da Floresta da Tijuca, uma formação rochosa que emerge tão agressivamente quanto um espinho.
Curioso...
Naturalmente ela esteve lá durante todo esse tempo em que venho passeando meu olhar por aquelas encostas, vales, elevações, ondulações, protuberâncias: todos recobertos por incontáveis tons de verde, salpicados de branco e, às vezes, após a chuva, também prata.
Nunca havia reparado naquele espinho de pedra. É uma montanha parecendo feita de uma rocha só, que sai naturalmente em meio a todas as outras. Todas com sua cobertura natural de mata, e ela com sua cobertura natural de lâmina. Entretanto, tão perfeitamente integrada, que não causa estranheza.
Deixei de fazer o que estava fazendo – ou não fazendo, pois, desde quando máquina de lavar roupa precisa de alguém olhando enquanto faz o seu ofício? – e me dispus a pensar a respeito da razão pela qual aquela montanha aguda de pedra passou a eclipsar todas as outras; o motivo de, mesmo agora, sem olhá-la, a mesma não sair de minha retina...
É porque tenho, como o Parque Nacional da Tijuca, os meus espinhos. A esperança é que eles estejam tão bem integrados ao meu todo que passem despercebidos. Como aquela montanha, os meus não devem ser destaque, não devem ter papel importante, não devem aparecer.
Sei que já foi diferente e lamento. Perdi tanto tempo usando mais a elevação de espinho do que as de matas promissoras, que quase esqueci para que serviam as outras tantas montanhas que existiam em mim.
Foi preciso um longo e doloroso olhar na minha formação e no modo como a vinha utilizando. Deixar de ser o que se vinha sendo há tanto tempo é morrer... Morro um pouco dia a dia. Será que o caminho para o aprimoramento não é morrer um pouco até o fim? Pára-se de morrer até a morte? Ou quando se pára de morrer é porque está na hora do fim: alcançou-se a plenitude e chega-se à morte.
Quem já não ouviu: Fulano estava tão feliz; no auge da carreira, uma família maravilhosa, os sonhos realizados e, no entanto, morreu. Talvez não seja no entanto; talvez seja por isso.

2 comentários:

patricia disse...

Ah Edna, esse texto me fez refletir tantas coisas. Tudo depende do nosso olhar, de como percebemos e damos sentido ao que acontece ao nosso redor. Obrigada por me fazer despertar esse meu olhar adormecido. Estava com saudade dos seus textos.

Tecelã disse...

Eu lhe devo agradecimentos, Pat. Pois somente quando divido o que escrevo é que o escrito faz sentido. Sem quem tenha a gentileza de lê-los e, suprema bondade, comentá-los, eles são estéreis.
Beijos, minha linda.